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Oi, vizinho: temos condições de encontrar vida extraterrestre nesta década?

Thiago Signorini Gonçalves

17/01/2020 04h00

Impressão artística do planeta TOI 700 d (Goddard/Nasa)

Nos últimos dias, tivemos vários anúncios de novos planetas descobertos ao redor de outras estrelas. Em um caso, um jovem de 17 anos descobriu um planeta orbitando um sistema binário, como Tattooine de Guerra nas Estrelas.

Mais tarde, astrônomos anunciaram um novo planeta terrestre orbitando Proxima Centauri, a estrela mais próxima do nosso sistema solar, assim como um planeta do tamanho da Terra a 100 anos-luz de distância que poderia conter água em estado líquido.

O que isso tudo significa para a ciência? Bom, por enquanto, nada. São descobertas interessantes, mas que de certa forma reproduzem diversos trabalhos científicos dos últimos cinco anos. Já havíamos descoberto planetas ao redor de estrelas binárias, planetas rochosos com possibilidade de água líquida, etc.

Mas é claro que eu não estaria escrevendo essa coluna se não houvesse algo interessante a ser dito. E o título do texto já dá uma boa dica.

Até 2018, o satélite campeão de exoplanetas era sem sombra de dúvida o Kepler, da Nasa. Foram milhares de novos planetas detectados, e uma revolução no nosso conhecimento sobre a formação de sistemas planetários.

No entanto, algo que poderia ser visto como seu ponto forte acabou sendo uma fraqueza inerente. Sendo muito sensível, o Kepler encontrou planetas principalmente em estrelas distantes, quando estes passavam na frente das suas estrelas hospedeiras e diminuíam levemente seu brilho aparente. Dessa forma, o estudo das propriedades planetárias era particularmente difícil.

Aí entra o TESS, novo satélite de busca por exoplanetas. Embora seja até menos sensível que o Kepler, o TESS consegue observar uma grande região do céu de cada vez. Assim, ao invés de procurar planetas em um pequeno grupo de estrelas distantes, está varrendo de forma eficiente a nossa vizinhança galáctica por novos planetas.

Os frutos dessa estratégia virão principalmente ao longo da próxima década. Com os novos telescópios espaciais (como o James Webb) e terrestres (como o ELT, a ser inaugurado no Chile em 2025), poderemos investigar a composição química da atmosfera desses planetas, analisando como a luz que vemos da estrela se altera quando o planeta passa em frente. Isso seria impossível para estrelas distantes, mas será lugar comum daqui a 10 anos.

A grande esperança dos astrônomos é encontrar nessas atmosferas uma assinatura química da presença de vida — algo como o gás carbônico produzido pela respiração celular. Não necessariamente algo que indique a presença de uma civilização, talvez apenas algumas bactérias. Mas já seria uma enorme reviravolta… Já pensaram, se daqui a 10 anos soubermos da existência de bactérias extraterrestres?!

Sobre o blog

O assunto aqui é Astronomia, num papo que vai além dos resultados. Conversamos sobre o dia-a-dia dos astrônomos, como as descobertas são feitas e a importância da astronomia nacional — afinal, é preciso sempre lembrar que existe pesquisa científica de qualidade no Brasil!

Sobre o autor

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em Astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia. Atua como professor de Astrofísica no Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e é coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público por meio de atividades de divulgação científica.

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