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Você não precisa gastar tanto para conseguir explorar o céu

Thiago Signorini Gonçalves

25/01/2020 04h00

Para contemplar o céu noturno, basta saber para onde olhar (Joshua Earle/ Unsplash)

Você adora astronomia. Gosta tanto, tanto mesmo, que quer sair para comprar aquele telescópio bacana e passar a noite toda desvendando os céus. E agora, o que fazer?

Escuto muito essa pergunta, e tenho algumas dicas para quem quer começar nessa aventura. Vamos lá então.

Qual telescópio devo comprar?

Na minha opinião, nenhum. É isso mesmo. Pelo menos para iniciantes, telescópios não são necessariamente a melhor ideia. São caros e difíceis de utilizar na maioria das vezes.

A melhor solução é, na verdade, um binóculo. É algo muito mais portátil, fácil de carregar, e principalmente se você mora em uma cidade grande, não vai conseguir ver muita coisa mesmo nos céus contaminados pela poluição luminosa.

Com bons binóculos – mais baratos que os telescópios, inclusive – você pode ir para um lugar escuro, afastado de centros urbanos, e aproveitar muito. Sugiro algo como 8×40, o que significa um aumento de 8x (já dá pra ver bastante coisa) e abertura de 40 mm (quanto maior a abertura, mais luz entra, e fica mais fácil de ver objetos mais fracos). No máximo um 10×50 para começar, mais que isso é muito pesado para aguentar com a mão.

Se você gostar da coisa, aí vale investir em um telescópio bacana. Mas a qualidade óptica é fundamental! Não compre aquelas lunetas baratas que prometem aumentos de centenas de vezes! São dinheiro jogado fora: a imagem fica borrada e você vai ver muito menos que com bons binóculos.

Tenho binóculos, o que faço agora?

Você pode estar se perguntando, dá para observar algo com um binóculo? Pode acreditar, mesmo com um aumento de 10x, já dá para ver muita coisa. Aponte pra Lua e você vai entender o que eu digo. Conseguir ver as crateras é uma experiência e tanto.

Mas você pode querer mais, e tem toda a razão. Tem gente que pensa em olhar estrelas com binóculos ou telescópios, e o resultado em geral é… decepcionante. Afinal, uma estrela é um pontinho brilhante no telescópio também.

No entanto, não se preocupe, há muitos objetos lindos no céu para apreciar. Aglomerados de estrelas, planetas, nebulosas. Muitos destes astros estão ao alcance de binóculos. O problema é encontrar.

(Breve parênteses para uma confissão: sou astrônomo profissional, mas também sou péssimo encontrando objetos no céu. Sei fazer isso matematicamente, mas não me peça para apontar para sua constelação favorita!)

Nesse caso, algo que me ajuda muito são os aplicativos de telefone. Dois que posso recomendar são o Sky Map (grátis – está disponível no Google Play) e o Stellarium (pago – disponível no Google Play e no App Store). São softwares geniais: você pode apontar o telefone para o céu e ele te diz o que está na frente. Ou então você pode fazer uma busca por objetos interessantes, e o aplicativo te leva até lá.

Saia e aproveite!

Agora é só sair e se divertir. Volto a dizer, dá para fazer algo de uma cidade grande, mas a contaminação luminosa impede que vejamos muitas coisas. O mais legal é quando você pode ir para algum lugar bem escuro, no campo ou na praia, e aproveitar uma noite de céus limpos.

Algumas últimas dicas: a Lua é linda, mas você consegue ver melhor as outras coisas sem ela. Afinal, o céu fica bem mais claro, principalmente com Lua cheia.

Aliás, para ver a própria Lua, o melhor é evitar a Lua cheia. Na crescente, por exemplo, a luz do Sol bate de lado, e podemos ver muito melhor as sombras das crateras.

Por último, lembre-se de que você pode aproveitar até mesmo sem binóculos! Em um lugar mais escuro é possível ver a Via Láctea, a própria galáxia que habitamos, como um traço de estrelas leitoso (daí o nome) atravessando os céus.

O importante é curtir. Contemplar o universo e lembrar de como somos pequenos diante de toda essa imensidão. Uma sensação ao mesmo tempo de espanto e inspiração, inesquecível.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o blog

O assunto aqui é Astronomia, num papo que vai além dos resultados. Conversamos sobre o dia-a-dia dos astrônomos, como as descobertas são feitas e a importância da astronomia nacional — afinal, é preciso sempre lembrar que existe pesquisa científica de qualidade no Brasil!

Sobre o autor

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em Astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia. Atua como professor de Astrofísica no Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e é coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público por meio de atividades de divulgação científica.

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