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Esse é Highlander: grão é mais velho que Sol e escapou de fornalha espacial

Thiago Signorini Gonçalves

07/02/2020 04h00

A rocha "Marie Curiosa", parte do meteorito Allende (Sociedade Planetária)

Cientistas divulgaram na semana passada um resultado surpreendente: encontraram grãos pré-solares na rocha "Marie Curiosa", parte do meteorito Allende que caiu na Terra em 1969 e que é um dos maiores já recuperados.

Embora não seja a primeira vez que encontramos algo do tipo, é uma descoberta inesperada que desafia nosso entendimento sobre a formação de sistemas planetários.

Segundo os modelos mais usados, o Sol e os planetas se formaram simultaneamente. A maior parte da massa da nuvem que gerou o sistema "cai" na estrela, que eventualmente começa a fundir os átomos de hidrogênio e gerar energia. O resto do material, composto de gás e poeira interestelar, se acumula em um disco ao redor da estrela, que eventualmente forma o resto do que hoje conhecemos como sistema solar: planetas, asteroides, cometas, etc.

É interessante notar que grande parte dessa poeira forma grãos que ficam protegidos dentro de corpos maiores. Esses grãos não estão expostos às intempéries interplanetárias, tais como raios cósmicos e variações de temperatura. Assim, já utilizamos há muito tempo os meteoritos que caem na Terra como uma espécie de álbum de retratos do sistema solar em sua infância.

O problema é que durante a formação do sistema essa poeira está exposta a temperaturas extremas, podendo atingir valores acima de 1000 graus Celsius durante o processo. Assim, é difícil entender como esses novos grãos podem ter preservado suas propriedades enquanto passavam por essa fornalha. Será que precisamos repensar nossos modelos de formação de sistemas planetários?

Astrônomos que olham para baixo

A Dra. Diana Andrade busca meteoritos no interior do país (Arquivo pessoal)

Aqui vale fazer uma pequena observação: nem todos os astrônomos passam o tempo olhando para os céus. Alguns deles, ao contrário, estão varrendo o chão em busca de pistas sobre as origens do nosso planeta.

Afinal, esses meteoritos não caem dentro das universidades, certo? É preciso organizar buscas, analisar amostras, como um verdadeiro prospector de ouro do século XIX. Uma dessas arqueólogas dos céus é a Dra. Diana Andrade, minha colega na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Quando ela e sua colega, a Dra. Maria Elizabeth Zucolotto, encontram um fragmento de meteorito, recolhem e levam para o laboratório para investigar suas propriedades. Pessoalmente, acho fascinante como alguém pode fazer astronomia de uma maneira tão diferente da minha.

Quem sabe ela não encontra um desses grãos pré-solares aqui mesmo em território brasileiro?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o blog

O assunto aqui é Astronomia, num papo que vai além dos resultados. Conversamos sobre o dia-a-dia dos astrônomos, como as descobertas são feitas e a importância da astronomia nacional — afinal, é preciso sempre lembrar que existe pesquisa científica de qualidade no Brasil!

Sobre o autor

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em Astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia. Atua como professor de Astrofísica no Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e é coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público por meio de atividades de divulgação científica.

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