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Descoberta em Júpiter pode revelar origem da água no Sistema Solar

Thiago Signorini Gonçalves

21/02/2020 04h00

Imagens da atmosfera de Júpiter obtidas pela sonda espacial Juno (Nasa/JPL-Caltech/SwRI/MSSS/Kevin M. Gill)

Dados da sonda Juno divulgados essa semana mostraram uma grande quantidade de água no planeta Júpiter. O estudo, liderado por Cheng Li, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, determinou que 0,25% das moléculas na atmosfera do planeta são de água.

Pode parecer pouco, mas isso é três vezes mais que o valor encontrado para o Sol. O resultado é fundamental para podermos entender as origens de água em planetas do Sistema Solar, e como essa água é transportada de um lugar para outro. Será que Júpiter foi bombardeado por pequenos corpos com quantidades diferentes de água em sua infância ou talvez ele tenha capturado uma grande quantidade de gelo do material ao seu redor enquanto se formava?

O resultado é particularmente surpreendente porque contrasta com o que já havíamos visto antes. A sonda Galileo mostrou em 1998 uma abundância menor que a solar ao realizar a medida. No entanto, os cientistas notaram que o satélite registrava quantidades cada vez maiores de água à medida que penetrava na atmosfera de Júpiter, sem um resultado conclusivo antes de perder contato permanentemente com a nave.

Juno, por outro lado, conta com um detector de microondas e pode fazer as medidas da órbita de Júpiter. Com um aparelho particularmente sensível, os cientistas puderam medir a atmosfera a profundidades ainda maiores que a Galileo, e então detectaram a grande quantidade de moléculas de água.

O resultado é surpreendente porque mostra que a atmosfera de Júpiter não é homogênea. O líder da missão, Scott Bolton, resume a surpresa: "Justo quando pensávamos que havíamos entendido tudo, Júpiter nos lembra que ainda temos muito a aprender.  A descoberta de que a atmosfera não é homogênea mesmo abaixo do topo das nuvens é um quebra-cabeças que ainda estamos tentando resolver."

Vale lembrar que as medidas foram feitas próximas ao equador do planeta. Como os dados mostram que os gases atmosféricos não estão bem misturados, o próximo passo será levar a sonda para as regiões mais próximas dos polos e repetir as medidas, para ver se a quantidade de água depende também da latitude.

Aproveito aqui a deixa e faço também um comentário: como o futebol, a ciência é uma caixinha de surpresas. Sempre há algo novo para ver, e novos instrumentos trazem novas descobertas. Ainda bem, porque isso garante meu trabalho por um bom tempo!

Sobre o blog

O assunto aqui é Astronomia, num papo que vai além dos resultados. Conversamos sobre o dia-a-dia dos astrônomos, como as descobertas são feitas e a importância da astronomia nacional — afinal, é preciso sempre lembrar que existe pesquisa científica de qualidade no Brasil!

Sobre o autor

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em Astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia. Atua como professor de Astrofísica no Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e é coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público por meio de atividades de divulgação científica.

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