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Tem filtro? Imagens do Hubble mostram as cores reais dos objetos do espaço?

Thiago Signorini Gonçalves

28/05/2020 04h00

Imagem do telescópio espacial Hubble da região de formação estelar NGC 2074 (Nasa/ ESA/ M. Livio – STScI)

Você já deve ter se perguntado como fazemos para conseguir imagens coloridas tão bonitas do espaço. Será que elas refletem a realidade? Ou será que é tudo editado em computador?

A diferença entre as duas coisas não é tão clara assim. Para entender como isso funciona, primeiro é necessário explicar um pouco sobre os detetores em telescópios. Eles são ligeiramente diferentes das câmeras digitais nos celulares.

No celular, cada pixel tem uma cor pré-determinada. Esse pixel só vai ser capaz de registrar luz vermelha ou verde ou azul. Aquela selfie bacana, colorida, é a mistura final de toda essa luz registrada pela câmera.

Em telescópios, os pixels não sabem distinguir cores sozinhos. A gente só sabe dizer quanta luz caiu em cada pixel. Para compor imagens como a que vemos aí em cima, precisamos obter pelo menos três imagens diferentes, com um filtro na frente da câmera que só deixa passar uma determinada cor. O resultado final é a composição desse conjunto.

É claro que os filtros podem ser um pouco diferentes. Voltando ao exemplo da selfie, quando você vai postar sua foto nas redes sociais, pode escolher um filtro específico para dar aquela valorizada na imagem. O processo não é muito diferente para as fotos de objetos astronômicos.

Mas aí você deve estar argumentando que o resultado final não é real. Mas o que é real aí? Lembre que em um dia ensolarado as cores da praia na sua foto serão muito diferentes de um dia nublado. As cores podem variar muito de acordo com a iluminação.

Da mesma forma, as imagens espaciais são feitas para realçar contrastes. Isso não quer dizer que as imagens sejam artificiais, mas apenas uma aproximação do que você veria realmente se estivesse ali perto.

Mesmo as fotos feitas por telescópios amadores não são absolutamente "reais": elas requerem que a câmera recolha luz por vários minutos, ou até mesmo várias horas, e não representam o que você vê ao colocar seu próprio olho no telescópio.

O mais importante é identificar quais imagens são obtidas com a faixa visível do espectro eletromagnético. Essas são as cores do arco-íris que podemos observar. No entanto, diferentes telescópios podem "enxergar" muito mais que isso. Raios-X, microondas, infravermelho… Vários tipos de emissão de energia invisíveis aos nossos olhos.

Esses dados também são tratados em computador para produzir imagens coloridas. Nesse caso, sim, podemos afirmar que são cores artificiais, já que não representam a luz emitida pelo corpo e são apenas uma visualização da emissão astronômica, seja por motivos científicos ou estéticos.

Sobre o blog

O assunto aqui é Astronomia, num papo que vai além dos resultados. Conversamos sobre o dia-a-dia dos astrônomos, como as descobertas são feitas e a importância da astronomia nacional — afinal, é preciso sempre lembrar que existe pesquisa científica de qualidade no Brasil!

Sobre o autor

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em Astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia. Atua como professor de Astrofísica no Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e é coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público por meio de atividades de divulgação científica.