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SpaceX e Elon Musk ajudam ou atrapalham o desenvolvimento da ciência?

Thiago Signorini Gonçalves

04/06/2020 04h00

Concepção artística da cápsula Crew Dragon, da SpaceX, que transportou os astronautas da Nasa (Divulgação)

A história todos já conhecem. No último dia 30, após uma tentativa de lançamento interrompida pelo mau tempo, a SpaceX e a Nasa lançaram a Crew Dragon com dois astronautas, utilizando o foguete Falcon 9 da empresa de Elon Musk e, 19 horas mais tarde, a cápsula acoplava à Estação Espacial Internacional para o início da missão de até cem dias.Para muitos, Musk é um visionário, um futurista que levará a humanidade a um próximo estágio. Para outros, incluindo grande parte da comunidade científica, Musk é um vilão. Vamos tentar entender o porquê da diferença?

Os benefícios científicos

Primeiro, é preciso entender que a pesquisa tecnológica da SpaceX traz, sim, benefícios para a pesquisa científica. Os foguetes Falcon, sobretudo, são capazes de pousar novamente, diminuindo muito o custo de lançamento. Dessa forma, quando pensamos em telescópios espaciais, os custos associados podem ser bastante reduzidos no momento de colocá-los em órbita.

Da mesma forma, o próprio transporte de astronautas é mais barato. Segundo a Nasa, o preço por assento nas cápsulas russas Soyuz era de US$ 86 milhões contra US$ 55 milhões da SpaceX. Podemos ver que ainda é caro, mas a possibilidade de enviar mais cientistas e experimentos para a Estação Espacial abre portas para o desenvolvimento tecnológico e a busca pelo conhecimento, sem dúvida.

Nem tudo é um universo de rosas

No entanto, é importante manter uma visão crítica desse novo cenário. Devemos refletir sobre os possíveis impactos dessa mudança de paradigma da exploração espacial.

Qual o benefício real da exploração espacial para a população? São projetos muito caros e que durante a Guerra Fria serviram muito mais como demonstração de poderio militar que para gerar avanços significativos.

O sonho do espaço não é para todos, e mesmo do ponto de vista científico as missões não tripuladas têm um retorno por dólar investido muito maior.

O objetivo final do projeto, alardeado pelo próprio Musk, é a colonização de Marte. A SpaceX tem um planejamento que inclui voos tripulados a Marte a partir de 2024. Embora possa parecer atraente e ambicioso, isso, na minha opinião, é irreal e serve mais como marketing da empresa do que uma agenda atingível de lançamentos.

Afinal, é importante lembrar que a SpaceX é uma empresa privada. Grande parte de seu influxo de capital vem justamente do governo americano, através de parcerias financeiras com a própria Nasa.

Conflito de interesses

No final, a preocupação maior dos cientistas é o conflito de interesses entre o retorno de capital e o investimento científico, muitas vezes feito "a fundo perdido", digamos.

Toda parceria privada é prejudicial à ciência? Não, nem de longe, e eu acho que existe um grande potencial na utilização dos foguetes da SpaceX para a ciência. Mas é fundamental ter em mente que às vezes os objetivos podem divergir.

O melhor exemplo, na minha opinião, é o dos satélites Starlink, que discuti em um post anterior. Alguns veem como a possibilidade de internet barata para todos, enquanto outros mais céticos mostram que isso talvez não funcione assim – e no final o projeto deve gerar renda através de parcerias militares. Enquanto isso, os satélites arruínam observações astronômicas, com tentativas tímidas (e até agora fracassadas) de resolver o problema.

Isso significa que devemos destruir todos os Starlink? Também não. Mas se os cientistas não se sentam à mesa com os diretores da SpaceX para discutir estratégias, estamos sendo excluídos do planejamento futuro, e isso é motivo de preocupação para todos. Não apenas nós, cientistas, mas também da população que queira se beneficiar dos avanços tecnológicos e científicos nas próximas décadas.

Sobre o blog

O assunto aqui é Astronomia, num papo que vai além dos resultados. Conversamos sobre o dia-a-dia dos astrônomos, como as descobertas são feitas e a importância da astronomia nacional — afinal, é preciso sempre lembrar que existe pesquisa científica de qualidade no Brasil!

Sobre o autor

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em Astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia. Atua como professor de Astrofísica no Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e é coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público por meio de atividades de divulgação científica.