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Flagra de explosão que ocorreu "pouco depois" do Big Bang intriga a ciência

Thiago Signorini Gonçalves

16/07/2020 04h00

No detalhe, brilho gerado pela colisão de estrelas de nêutrons, detectada pelo telescópio Gemini. (Gemini/NOIRLab/NSF/AURA/K. Paterson & W. Fong -Northwestern University)

Imagine-se na praia de Copacabana, no dia de Ano Novo. Aquele lindo espetáculo de fogos de artifício está para começar. Qual é a melhor maneira de aproveitar o show? Olhe pra cima e aproveite, claro!

Agora imagine que alguém ao seu lado tem um tremendo binóculo e está olhando fixamente para um ponto específico no céu. Ora, ele vai perder tudo, certo? Quantas explosões vermelhas, azuis acontecerão mais para esquerda ou mais para direita?

Astrônomos têm um problema parecido quando estão buscando eventos transientes, ou seja, aqueles que acontecem rapidamente e desaparecem em seguida. É o caso, por exemplo, de supernovas, que brilham intensamente mas somem após algumas semanas.

Para resolver o problema, criamos instrumentos que, como uma pessoa na praia, consegue olhar para um pedaço grande do céu ao mesmo tempo, avisando quando encontra algo de novo, diferente. Foi assim que Kerry Patterson e sua equipe utilizaram o telescópio espacial Swift para encontrar a segunda explosão curta de raios gamas (ou short gamma ray burst, em inglês) mais distante já vista, que aconteceu apenas 3,8 bilhões de anos após o Big Bang.

Essas explosões são causadas pela colisão de estrelas de nêutrons e fornecem pistas importantes sobre o funcionamento dos próprios objetos. A luminosidade vai depender muito da estrutura da estrela de nêutrons, que são geradas após a morte de estrelas particularmente massivas.

Infelizmente, o problema não acaba aí. O Swift é ótimo para encontrar esses objetos, mas por observar uma grande parte do céu, não pode dar tantas informações sobre uma explosão específica. Além disso, os dados são apenas em raios gama, e outros tipos de energia (como a luz vísivel) são importantes para entendermos melhor o fenômeno.

Se você estivesse na praia e visse algo fraco, estranho, durante o espetáculo de fogos de artifício, poderia pedir emprestado o binóculo do vizinho para ver aquilo melhor. É o que fizeram Patterson e sua equipe, acionando o telescópio Gemini de oito metros de diâmetro, no Havaí. Dessa forma conseguiram ver também a luz emitida pelo choque, batendo o recorde de afterglow (como é chamado esse brilho remanescente) mais distante já observado.

Como todo bom resultado científico, a descoberta abre novas perguntas. Se estrelas de nêutrons são remanescentes de estrelas "normais", como é possível que em apenas três bilhões de anos após o Big Bang dois desses objetos tenham sido criados e se aproximados o suficiente para se chocar?

O desafio agora é entender como isso pode ter acontecido tão "rápido" – 3 bilhões de anos podem parecer muito, mas para o início do universo parece um ritmo acelerado!

Sobre o blog

O assunto aqui é Astronomia, num papo que vai além dos resultados. Conversamos sobre o dia-a-dia dos astrônomos, como as descobertas são feitas e a importância da astronomia nacional — afinal, é preciso sempre lembrar que existe pesquisa científica de qualidade no Brasil!

Sobre o autor

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em Astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia. Atua como professor de Astrofísica no Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e é coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público por meio de atividades de divulgação científica.