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O que usar a Lua como espelho nos ensina sobre o universo

Thiago Signorini Gonçalves

13/08/2020 04h00

Eclipse parcial da Lua é utilizado para estudar a atmosfera terrestre (Christina Koch/Nasa)

Já pensou se pudéssemos usar a Lua para buscar vida em outros planetas? Não se preocupem, não estou falando de alienígenas lunares, mas de um projeto científico inovador que usou o telescópio espacial Hubble e um eclipse lunar para aprimorar a técnica de busca por vida no Universo.

Sabemos hoje que planetas são abundantes. A Via Láctea, nossa galáxia, deve ter bilhões deles, muitos semelhantes à Terra –ou seja, planetas rochosos, a uma distância segura de sua estrela para que não seja muito quente ou muito frio. No entanto, isso não quer dizer que abriguem vida em sua superfície. Mesmo se pensarmos apenas em bactérias, como podemos saber que elas existem em outros planetas?

O telescópio espacial James Webb, que será lançado no ano que vem, espera ajudar a responder essa pergunta. A ideia é relativamente simples: ao analisar a luz que atravessa a atmosfera de um planeta, quando ele se encontra entre nós e a estrela que orbita, podemos analisar a composição química dos gases ao redor do planeta. Dessa forma, podemos buscar por dióxido de carbono ou alguma outra molécula que indique a presença de organismos vivos na superfície planetária.

No entanto, como poderíamos reconhecer essas assinaturas químicas? Afinal, o único planeta com vida que conhecemos é a Terra. Nossa casa deve então servir de parâmetro de comparação. O problema é saber como repetir o experimento. Não podemos apontar nenhum telescópio diretamente para o Sol, e o fato de estarmos "dentro" da atmosfera terrestre dificulta muito esse tipo de observação.

A solução encontrada por Allison Youngblood (Universidade de Colorado e do Instituto Goddard/Nasa) e seus colaboradores foi engenhosa. Eles utilizaram o telescópio espacial Hubble e apontaram… para a Lua. Durante um eclipse, toda a luz solar que atinge a superfície lunar atravessou a atmosfera terrestre, afinal a Terra se encontra exatamente entre o Sol e a Lua – por isso vemos a Lua avermelhada durante um eclipse. Ao analisar essa luz durante e após o eclipse, a equipe conseguiu medir a variação causada pela interferência da atmosfera.

Os cientistas estavam buscando sinais de ozônio, um subproduto do oxigênio que é tão fundamental para a manutenção da vida em nosso planeta. E, de fato, conseguiram observar como a luz ultravioleta era bloqueada pela atmosfera terrestre. Assim como o ozônio nos protege dessa radiação causadora do câncer, ele também aparece nas observações da Lua!

Isso abre portas importantes para a busca pela vida em outros planetas. Será que algum mundo em nossa galáxia possui uma composição química semelhante à da Terra? Será que encontraremos um planeta com oxigênio e carbono nos próximos anos?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o blog

O assunto aqui é Astronomia, num papo que vai além dos resultados. Conversamos sobre o dia-a-dia dos astrônomos, como as descobertas são feitas e a importância da astronomia nacional — afinal, é preciso sempre lembrar que existe pesquisa científica de qualidade no Brasil!

Sobre o autor

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em Astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia. Atua como professor de Astrofísica no Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e é coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público por meio de atividades de divulgação científica.