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Quais segredos do Sol conseguiremos descobrir com o novo supertelescópio?

Thiago Signorini Gonçalves

01/02/2020 04h00

Células que compõem a superfície solar. Créditos: NSO/AURA/NSF

Pode parecer pé-de-moleque, pode parecer pipoca doce. Na verdade, a imagem acima mostra a superfície do Sol, tal qual observada pelo recém-inaugurado telescópio solar Daniel K Inouye, no Havaí. Com quatro metros de diâmetro, é o maior telescópio solar do mundo, e inaugura uma nova era de estudos do nosso astro-rei.

De certa forma, é surpreendente que ainda se invista tanto no estudo do Sol. Afinal, em termos astronômicos, ele está aqui do lado, a uma distância de meros 8 minutos-luz. Enquanto isso, estudamos galáxias a distância de dezenas de bilhões de anos-luz, cada uma composta por centenas de bilhões de sóis. O que podemos aprender com apenas um?

A resposta é: muito. O Sol é uma estrela relativamente comum, nem muito grande nem muito pequena, e (literalmente) trilhões de estrelas semelhantes existem universo afora. No entanto, justamente por ser nosso vizinho, ele representa uma oportunidade única de investigar em detalhes o funcionamento de uma estrela típica.

Ainda há muito que não entendemos sobre o funcionamento de uma estrela. Por exemplo, por que a coroa solar, que fica acima da superfície, é tão quente, com milhões de graus Celsius (a superfície solar tem apenas 6000 graus)? Ou como explicar as erupções solares e sua relação com o campo magnético que observamos no Sol?

Tudo isso tem relação com o clima espacial e os efeitos observados aqui na Terra. Em doses moderadas, os ventos solares podem interagir com o campo magnético terrestre e gerar as lindas auroras que podem ser observadas próximas aos polos. Em casos extremos, os mesmos ventos podem afetar seriamente equipamentos de telecomunicação e linhas de transmissão de energia elétrica. Seria ótimo poder prever com precisão estes fenômenos.

No final, isso tem uma relação fundamental com a própria busca por vida em outros planetas. Afinal, a existência de vida aqui na Terra não depende apenas da distância ao Sol e da possibilidade de haver água em estado líquido, mas de toda uma série de condições que deram origem ao delicado equilíbrio que permitiu a existência da nossa atmosfera. Será que poderíamos sobreviver a uma estrela com erupções solares constantes? Quem sabe o novo telescópio não nos dará as respostas nos próximos anos?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre o blog

O assunto aqui é Astronomia, num papo que vai além dos resultados. Conversamos sobre o dia-a-dia dos astrônomos, como as descobertas são feitas e a importância da astronomia nacional — afinal, é preciso sempre lembrar que existe pesquisa científica de qualidade no Brasil!

Sobre o autor

Thiago Signorini Gonçalves é doutor em Astrofísica pelo Instituto de Tecnologia da Califórnia. Atua como professor de Astrofísica no Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e é coordenador de comunicação da Sociedade Astronômica Brasileira. Utilizando os maiores telescópios da Terra e do espaço, estuda a formação e evolução de galáxias, desde o Big Bang até os dias atuais. Apaixonado por ciência, tenta levar os encantos do Universo ao público por meio de atividades de divulgação científica.

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