Espaço-Tempo http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br O assunto aqui é Astronomia, num papo que vai além dos resultados. Fri, 20 Mar 2020 07:00:37 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Cortes de bolsas tornam ainda mais incerto o futuro da ciência no Brasil http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/03/20/cortes-de-bolsas-tornam-ainda-mais-incerto-o-futuro-da-ciencia-no-brasil/ http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/03/20/cortes-de-bolsas-tornam-ainda-mais-incerto-o-futuro-da-ciencia-no-brasil/#respond Fri, 20 Mar 2020 07:00:37 +0000 http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/?p=191

Divulgação

Hoje deixo de lado um pouco as notícias astronômicas e falo um pouco sobre o apoio à pesquisa no Brasil.

Faço isso porque a situação da pós-graduação no país, já em estado terminal, sofreu mais um duro golpe essa semana. Um ofício publicado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes, a principal agência que oferece bolsas de mestrado e doutorado em todo o Brasil) e divulgado na última quarta-feira (18) permite redução de até 50% no número de bolsas em um determinado programa.

Uma situação precária

Para contextualizar o problema, um panorama histórico e algumas breves explicações.

Primeiro, estudantes de pós-graduação são fundamentais em um instituto de pesquisa. São eles e elas que carregam o piano, por assim dizer, realizando boa parte (ou talvez até a maioria) das tarefas relacionadas à ciência, já que não têm outras responsabilidades didáticas ou administrativas.

Além disso, a maioria de estudantes depende das bolsas como salários. Eles têm um compromisso de dedicação exclusiva e não podem ter nenhuma outra fonte de renda, trabalhando integralmente em seus projetos de pesquisa.

Por fim, essa mesma classe está sem aumentos desde 2013. São quase 50% de inflação acumulada, o que representa uma forte desvalorização da bolsa e do trabalho destes cientistas.

Pós-graduação sem bolsas?

Como se já não bastasse tudo isso, agora a Capes dá seguimento a uma série de iniciativas que reduziu significativamente o número de bolsas no país. Em 2019 já foram mais de 7.500 bolsas cortadas, de cerca de 90.000 em todo o país. São milhares de cientistas que deixam de se formar por ano.

Em 2020, recebemos em fevereiro um comunicado que determinava nova distribuição de bolsas entre os diferentes programas de pós-graduação. À época, a Capes afirmou que não haveria alterações de mais de 10% no número de bolsas em cada programa.

Os critérios foram duramente criticados. O principal problema, para muitos, era usar o número de titulados como critério de avaliação. Isso quer dizer que programas menores, independente da qualidade da formação, seriam os mais penalizados.

No caso da Astronomia da UFRJ, curso que coordeno, o mínimo aceitável seria um total de seis mestres formados por ano. Se temos sete bolsas ao todo e o mestrado dura tipicamente dois anos, isso significa que a única maneira de não perdermos bolsas seria que metade de estudantes estivesse trabalhando de graça.

Com as críticas, as inscrições foram suspensas, até que a nova metodologia fosse revista. Para nossa surpresa, na quarta-feira recebemos a notícia de que os critérios estavam mantidos, mas agora a variação máxima seria de 50%. Um programa poderia perder imediatamente metade de suas bolsas!

Ainda não sabemos bem quantas bolsas foram perdidas, mas sem dúvida os mais afetados são os menores programas, que foram inaugurados mais recentemente ou estão em áreas tipicamente mais carentes do país. E é até difícil justificar os cortes com a crise econômica, se o valor economizado é menor que o aumento do fundo partidário para este ano.

Essas medidas afetam pessoas. No nosso caso, por exemplo, contamos com as bolsas e fazemos a seleção de novos alunos no final de cada ano. Tínhamos estudantes que já se haviam mudado no início do mês da Bahia e de Minas Gerais para o Rio de Janeiro para cursar o doutorado em Astronomia. Agora a situação dessas pessoas é incerta. Será que devem abandonar o programa e voltar para casa?

Para onde vamos?

Agora o futuro da ciência no Brasil se torna ainda mais nebuloso. Em outra agência, foi um corte de 87% no financiamento, e a fuga de cérebros se agrava a cada ano. No meio de uma pandemia, estamos cortando o fomento à pesquisa.

Como podemos planejar o crescimento brasileiro sem formar cientistas?

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Tem matéria escura até no nosso corpo, mas o que exatamente ela é? http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/03/13/tem-materia-escura-ate-no-nosso-corpo-mas-o-que-exatamente-ela-e/ http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/03/13/tem-materia-escura-ate-no-nosso-corpo-mas-o-que-exatamente-ela-e/#respond Fri, 13 Mar 2020 07:00:22 +0000 http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/?p=183

Imagem do aglomerado MACSJ0717.5+3745. Aglomerados de galáxias são compostos na maior parte por matéria escura (Imagem: Hubble)

Você já deve ter escutado alguma coisa sobre matéria escura, a misteriosa substância que mantém as galáxias unidas. Mas será que ela existe mesmo? Do que ela é feita? Será que vamos conseguir entender o mistério nos próximos anos?

As primeiras evidências da existência da matéria escura foram encontradas pelo astrônomo suíço Fritz Zwicky. Ao estudar galáxias em aglomerados (como o da imagem acima), ele notou que elas se moviam rápido demais. A tal matéria escura seria então necessária para manter o aglomerado unido, ou as galáxias sairiam voando pelo espaço.

Infelizmente o trabalho foi desacreditado, e foram necessários vários anos até que o assunto voltasse à tona. Na década de 70, Vera Rubin analisou as órbitas de estrelas e gás em galáxias próximas à Via Láctea, encontrando um resultado muito semelhante: elas giravam muito rápido. Sem a matéria escura para atrair o resto do material, não poderíamos explicar as órbitas. A galáxia simplesmente se desintegraria.

Desde então, a matéria escura se tornou ingrediente integral da astrofísica. Simulações computacionais avançadíssimas tentam reproduzir a evolução do universo desde o Big Bang, e sem a matéria escura, elas não funcionam, produzindo um universo virtual que não tem nada a ver com o real. Nem mesmo a composição química do universo faria sentido: a quantidade de deutério (um “primo” do átomo de hidrogênio, que foi fabricado durante o Big Bang) que observamos no universo não pode ser explicada se toda a matéria existente for composta de átomos normais. Algo estranho deve estar acontecendo.

Aí talvez possamos entender uma distinção importante entre astrônomos extragalácticos, como eu, e os físicos de partículas e cosmólogos. Afinal, para mim a matéria escura funciona excepcionalmente bem como uma receita de bolo: adicione uma pitada (ou alguns trilhões de trilhões de trilhões de trilhões de trilhões de toneladas, aproximadamente) de matéria escura, espere alguns bilhões de anos e suas galáxias estarão prontas.

Para os outros, no entanto, o problema fundamental é: afinal, o que é a matéria escura? O modelo padrão da física não consegue explicar a existência de uma matéria que não produza energia luminosa de nenhuma forma. Só sabemos que ela existe por seus efeitos gravitacionais, “pesando” galáxias e aglomerados no universo.

Tentando resolver o problema, cientistas criam experimentos cada vez maiores, como o Xenon1T. A ideia nesse caso é construir um tanque de uma tonelada de xenônio, que seria capaz de detectar a colisão das partículas de matéria escura com o material do tanque. Afinal, a matéria escura está ao nosso redor e dentro de nós, e nesse instante há um bilionésimo de grama de matéria escura dentro do seu corpo.

Até agora, não encontramos nada. E esse talvez seja o maior mistério de todos. Se os experimentos anteriores não detectaram nada, então alguns modelos e hipóteses para a matéria escura podem ser descartadas. Daqui a pouco, ficaremos sem opções… E aí, será que o bolo vai desandar?

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Informação séria é a mais ameaçada pelo “asteroide destruidor de mundos” http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/03/06/informacao-seria-e-a-maior-ameacada-pelo-asteroide-destruidor-de-mundos/ http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/03/06/informacao-seria-e-a-maior-ameacada-pelo-asteroide-destruidor-de-mundos/#respond Fri, 06 Mar 2020 07:00:30 +0000 http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/?p=171

MasterTux / Pixabay

Mais um ano, mais um asteroide que vai acabar com a vida na Terra. Isso já está ficando cansativo, não é?

Já viram as manchetes nos sites de notícias? “Asteroide colossal ameaça deixar marca destruidora na Terra”. “Nasa alerta para aproximação de asteroide que pode acabar com vida na Terra”. “Nasa alerta para asteroide que pode acabar com a humanidade ao cruzar trajetória da Terra”. Em geral em matérias ilustradas com imagens assustadoras como essa aí de cima.

Primeiro, aos fatos. O asteroide 52768 (1998 OR2) tem 4 km de diâmetro e vai passar a mais de 6 milhões de quilômetros da Terra no dia 29 de abril deste ano. Isso representa cerca de 16 vezes a distância entre a Terra e a Lua. Assim, não há nenhum perigo para nós, e a Nasa não fez nenhum alerta.

Mas por que então essas notícias voltam a aparecer? Porque causam furor, porque atingem o público e conseguem uma resposta emocional. É esse tipo de resposta que permite que alguém receba a notícia em suas redes sociais e compartilhe imediatamente. Um estudo da Nature em 2018 mostrou que as fake news têm uma probabilidade 70% maior que notícias verdadeiras de serem compartilhadas, justamente pelo medo e surpresa que causam.

Esse fenômeno é perigoso. Em um caso parecido, um vídeo circula na internet em que um “especialista” recomenda usar vinagre ao invés de álcool gel nas mãos para se proteger do coronavírus. Gente, seu braço não é salada pra ser temperado desse jeito. E pior, isso não previne a contaminação, causando um potencial problema de saúde pública.

Como na famosa frase do filme Rebeldia Indomável, “o que temos aqui é uma falha de comunicação”. Cientistas perdem espaços nos jornais e mídias sociais para falsos especialistas e charlatães, que se aproveitam desse terreno fértil para a disseminação de notícias falsas. É fundamental recuperar esses espaços, buscando novas linguagens para aproximar a sociedade das fontes de informação confiáveis.

Nesse meio tempo, fica um pedido: se receberem notícias alardeadoras como essa, reflitam e verifiquem a veracidade antes de compartilhar.

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Terra adota uma nova Lua só por um tempo, e isso é bem comum no espaço http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/02/28/terra-adota-uma-nova-lua-mas-vai-se-livrar-dela-e-isso-e-comum-no-espaco/ http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/02/28/terra-adota-uma-nova-lua-mas-vai-se-livrar-dela-e-isso-e-comum-no-espaco/#respond Fri, 28 Feb 2020 07:00:54 +0000 http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/?p=162

Impressão artística de um asteroide orbitando a Terra (Nasa)

Você já ouviu dizer que alguém é de Lua? Como se fosse inconstante, suscetível a mudanças? Bom, imagino que isso deve ser por causa das fases da Lua. Mas e se nem a Lua fosse algo constante, como um corpo que está temporariamente no céu e depois vai embora?

É exatamente isso que está acontecendo com 2020 CD3, como é chamado o asteroide recém-descoberto pelos astrônomos Theodore Pruyne e Kacper Wierzchos, como parte do projeto Levantamento do Céu Catalina. O pequeno corpo, com apenas alguns metros de diâmetro, foi capturado pelo campo gravitacional da Terra há cerca de 2 anos, mas só foi visto agora justamente por causa de seu tamanho diminuto.

Não é a primeira vez que isso é observado. Em 2006, o objeto RH120 foi descoberto em condições semelhantes, orbitando a Terra temporariamente durante alguns meses.

O mais interessante desses casos é a efemeridade do fenômeno. As simulações mostram que CD3 deve orbitar a Terra até abril deste ano, quando será lançado de volta ao espaço.

Isso mostra como as condições no Sistema Solar mudam constantemente. Ao contrário do que muita gente pode pensar, os corpos não estão em órbitas permanentes e podem mudar de lugar. Interações com planetas maiores podem lançar asteroides de um lado para o outro, e até a pressão causada pela luz emitida pelo Sol pode alterar a órbita de corpos pequenos!

A própria Lua, essa que você vê no céu, está se afastando de nós, a uma taxa de quatro centímetros por ano. Isso acontece devido a efeitos relacionados à interação gravitacional com a Terra e as marés causadas por essa interação.

Existe até mesmo um modelo teórico que afirma que, em sua origem, o Sistema Solar possuía um quinto planeta gigante (além de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno), que foi expelido por interações gravitacionais semelhantes. Isso ainda não foi confirmado, mas, como podem ver, os planetas e outros objetos ao nosso redor não são nada constantes.

Será que tudo isso quer dizer que quem nasce até abril pode ter o asteroide CD3 como regente do signo? Afinal, tudo está em constante movimento, por que não?

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Descoberta em Júpiter pode revelar origem da água no Sistema Solar http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/02/21/descoberta-em-jupiter-pode-revelar-origem-da-agua-no-sistema-solar/ http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/02/21/descoberta-em-jupiter-pode-revelar-origem-da-agua-no-sistema-solar/#respond Fri, 21 Feb 2020 07:00:13 +0000 http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/?p=148

Imagens da atmosfera de Júpiter obtidas pela sonda espacial Juno (Nasa/JPL-Caltech/SwRI/MSSS/Kevin M. Gill)

Dados da sonda Juno divulgados essa semana mostraram uma grande quantidade de água no planeta Júpiter. O estudo, liderado por Cheng Li, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, determinou que 0,25% das moléculas na atmosfera do planeta são de água.

Pode parecer pouco, mas isso é três vezes mais que o valor encontrado para o Sol. O resultado é fundamental para podermos entender as origens de água em planetas do Sistema Solar, e como essa água é transportada de um lugar para outro. Será que Júpiter foi bombardeado por pequenos corpos com quantidades diferentes de água em sua infância ou talvez ele tenha capturado uma grande quantidade de gelo do material ao seu redor enquanto se formava?

O resultado é particularmente surpreendente porque contrasta com o que já havíamos visto antes. A sonda Galileo mostrou em 1998 uma abundância menor que a solar ao realizar a medida. No entanto, os cientistas notaram que o satélite registrava quantidades cada vez maiores de água à medida que penetrava na atmosfera de Júpiter, sem um resultado conclusivo antes de perder contato permanentemente com a nave.

Juno, por outro lado, conta com um detector de microondas e pode fazer as medidas da órbita de Júpiter. Com um aparelho particularmente sensível, os cientistas puderam medir a atmosfera a profundidades ainda maiores que a Galileo, e então detectaram a grande quantidade de moléculas de água.

O resultado é surpreendente porque mostra que a atmosfera de Júpiter não é homogênea. O líder da missão, Scott Bolton, resume a surpresa: “Justo quando pensávamos que havíamos entendido tudo, Júpiter nos lembra que ainda temos muito a aprender.  A descoberta de que a atmosfera não é homogênea mesmo abaixo do topo das nuvens é um quebra-cabeças que ainda estamos tentando resolver.”

Vale lembrar que as medidas foram feitas próximas ao equador do planeta. Como os dados mostram que os gases atmosféricos não estão bem misturados, o próximo passo será levar a sonda para as regiões mais próximas dos polos e repetir as medidas, para ver se a quantidade de água depende também da latitude.

Aproveito aqui a deixa e faço também um comentário: como o futebol, a ciência é uma caixinha de surpresas. Sempre há algo novo para ver, e novos instrumentos trazem novas descobertas. Ainda bem, porque isso garante meu trabalho por um bom tempo!

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Smartphone do ET? Sinais de rádio misteriosos chegam de galáxias distantes http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/02/15/smartphone-do-et-sinais-de-radio-misteriosos-chegam-de-galaxias-distantes/ http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/02/15/smartphone-do-et-sinais-de-radio-misteriosos-chegam-de-galaxias-distantes/#respond Sat, 15 Feb 2020 07:00:26 +0000 http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/?p=140

VLA, um dos radiotelescópios que astrônomos usam para estudar os céus (NRAO)

Imaginem só. Você está observando as estrelas de noite, e de repente uma luz forte começa a piscar rapidamente. O fenômeno pode durar várias horas. E depois desaparece para sempre. O que você acha? Era um alienígena visitando a Terra?

Talvez tenha sido isso que Duncan Lorimer e David Narkevic pensaram quando descobriram o primeiro “Fast Radio Burst” (algo como “Rajada Rápida de Rádio” ou FRB na sigla em inglês), em 2007. A diferença é que não eram flashes de luz, mas sim ondas de rádio. E podem ser muito fortes em sua origem, mas como estão muito distantes vemos uma quantidade de energia mil vezes menor que um celular na superfície da Lua.

Ainda assim, é um mistério que continua até os dias de hoje na astronomia. Desde então, cientistas tentam descobrir a origem dessas rajadas, que podem ser causadas por buracos negros, supernovas, estrelas de nêutrons ou algum outro objeto astronômico compacto.

O grande problema sempre foi observar o fenômeno. A maioria dos FRBs acontecia uma vez e desaparecia mais tarde; apenas dois deles voltaram a brilhar, e ainda assim de forma irregular e inesperada.

Agora, uma nova descoberta pode ajudar a resolver o mistério. A colaboração canadense CHIME anunciou a primeira observação de um FRB que se repete periodicamente, a cada 16 dias, localizado em uma galáxia a cerca de 500 milhões de anos-luz de distância.

A origem do fenômeno ainda é desconhecida. Por ser periódico, deve ter alguma relação com órbitas ou algo astronômico que se repita. Ainda assim, essa nova descoberta fornece uma oportunidade inédita: agora sabemos para onde olhar e quando, o que nos permite apontar os telescópios para o lugar certo e na hora certa.

Se enxergarmos algum ET dando tchauzinho, prometo publicar aqui no blog primeiro.

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Esse é Highlander: grão é mais velho que Sol e escapou de fornalha espacial http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/02/07/esse-e-highlander-grao-e-mais-velho-que-sol-e-escapou-de-fornalha-espacial/ http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/02/07/esse-e-highlander-grao-e-mais-velho-que-sol-e-escapou-de-fornalha-espacial/#respond Fri, 07 Feb 2020 07:00:22 +0000 http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/?p=126

A rocha “Marie Curiosa”, parte do meteorito Allende (Sociedade Planetária)

Cientistas divulgaram na semana passada um resultado surpreendente: encontraram grãos pré-solares na rocha “Marie Curiosa”, parte do meteorito Allende que caiu na Terra em 1969 e que é um dos maiores já recuperados.

Embora não seja a primeira vez que encontramos algo do tipo, é uma descoberta inesperada que desafia nosso entendimento sobre a formação de sistemas planetários.

Segundo os modelos mais usados, o Sol e os planetas se formaram simultaneamente. A maior parte da massa da nuvem que gerou o sistema “cai” na estrela, que eventualmente começa a fundir os átomos de hidrogênio e gerar energia. O resto do material, composto de gás e poeira interestelar, se acumula em um disco ao redor da estrela, que eventualmente forma o resto do que hoje conhecemos como sistema solar: planetas, asteroides, cometas, etc.

É interessante notar que grande parte dessa poeira forma grãos que ficam protegidos dentro de corpos maiores. Esses grãos não estão expostos às intempéries interplanetárias, tais como raios cósmicos e variações de temperatura. Assim, já utilizamos há muito tempo os meteoritos que caem na Terra como uma espécie de álbum de retratos do sistema solar em sua infância.

O problema é que durante a formação do sistema essa poeira está exposta a temperaturas extremas, podendo atingir valores acima de 1000 graus Celsius durante o processo. Assim, é difícil entender como esses novos grãos podem ter preservado suas propriedades enquanto passavam por essa fornalha. Será que precisamos repensar nossos modelos de formação de sistemas planetários?

Astrônomos que olham para baixo

A Dra. Diana Andrade busca meteoritos no interior do país (Arquivo pessoal)

Aqui vale fazer uma pequena observação: nem todos os astrônomos passam o tempo olhando para os céus. Alguns deles, ao contrário, estão varrendo o chão em busca de pistas sobre as origens do nosso planeta.

Afinal, esses meteoritos não caem dentro das universidades, certo? É preciso organizar buscas, analisar amostras, como um verdadeiro prospector de ouro do século XIX. Uma dessas arqueólogas dos céus é a Dra. Diana Andrade, minha colega na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Quando ela e sua colega, a Dra. Maria Elizabeth Zucolotto, encontram um fragmento de meteorito, recolhem e levam para o laboratório para investigar suas propriedades. Pessoalmente, acho fascinante como alguém pode fazer astronomia de uma maneira tão diferente da minha.

Quem sabe ela não encontra um desses grãos pré-solares aqui mesmo em território brasileiro?

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Quais segredos do Sol conseguiremos descobrir com o novo supertelescópio? http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/02/01/quais-segredos-do-sol-conseguiremos-descobrir-com-o-novo-supertelescopio/ http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/02/01/quais-segredos-do-sol-conseguiremos-descobrir-com-o-novo-supertelescopio/#respond Sat, 01 Feb 2020 07:00:24 +0000 http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/?p=118

Células que compõem a superfície solar. Créditos: NSO/AURA/NSF

Pode parecer pé-de-moleque, pode parecer pipoca doce. Na verdade, a imagem acima mostra a superfície do Sol, tal qual observada pelo recém-inaugurado telescópio solar Daniel K Inouye, no Havaí. Com quatro metros de diâmetro, é o maior telescópio solar do mundo, e inaugura uma nova era de estudos do nosso astro-rei.

De certa forma, é surpreendente que ainda se invista tanto no estudo do Sol. Afinal, em termos astronômicos, ele está aqui do lado, a uma distância de meros 8 minutos-luz. Enquanto isso, estudamos galáxias a distância de dezenas de bilhões de anos-luz, cada uma composta por centenas de bilhões de sóis. O que podemos aprender com apenas um?

A resposta é: muito. O Sol é uma estrela relativamente comum, nem muito grande nem muito pequena, e (literalmente) trilhões de estrelas semelhantes existem universo afora. No entanto, justamente por ser nosso vizinho, ele representa uma oportunidade única de investigar em detalhes o funcionamento de uma estrela típica.

Ainda há muito que não entendemos sobre o funcionamento de uma estrela. Por exemplo, por que a coroa solar, que fica acima da superfície, é tão quente, com milhões de graus Celsius (a superfície solar tem apenas 6000 graus)? Ou como explicar as erupções solares e sua relação com o campo magnético que observamos no Sol?

Tudo isso tem relação com o clima espacial e os efeitos observados aqui na Terra. Em doses moderadas, os ventos solares podem interagir com o campo magnético terrestre e gerar as lindas auroras que podem ser observadas próximas aos polos. Em casos extremos, os mesmos ventos podem afetar seriamente equipamentos de telecomunicação e linhas de transmissão de energia elétrica. Seria ótimo poder prever com precisão estes fenômenos.

No final, isso tem uma relação fundamental com a própria busca por vida em outros planetas. Afinal, a existência de vida aqui na Terra não depende apenas da distância ao Sol e da possibilidade de haver água em estado líquido, mas de toda uma série de condições que deram origem ao delicado equilíbrio que permitiu a existência da nossa atmosfera. Será que poderíamos sobreviver a uma estrela com erupções solares constantes? Quem sabe o novo telescópio não nos dará as respostas nos próximos anos?

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Você não precisa gastar tanto para conseguir explorar o céu http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/01/25/voce-nao-precisa-gastar-tanto-para-conseguir-explorar-o-ceu/ http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/01/25/voce-nao-precisa-gastar-tanto-para-conseguir-explorar-o-ceu/#respond Sat, 25 Jan 2020 07:00:42 +0000 http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/?p=109

Para contemplar o céu noturno, basta saber para onde olhar (Joshua Earle/ Unsplash)

Você adora astronomia. Gosta tanto, tanto mesmo, que quer sair para comprar aquele telescópio bacana e passar a noite toda desvendando os céus. E agora, o que fazer?

Escuto muito essa pergunta, e tenho algumas dicas para quem quer começar nessa aventura. Vamos lá então.

Qual telescópio devo comprar?

Na minha opinião, nenhum. É isso mesmo. Pelo menos para iniciantes, telescópios não são necessariamente a melhor ideia. São caros e difíceis de utilizar na maioria das vezes.

A melhor solução é, na verdade, um binóculo. É algo muito mais portátil, fácil de carregar, e principalmente se você mora em uma cidade grande, não vai conseguir ver muita coisa mesmo nos céus contaminados pela poluição luminosa.

Com bons binóculos – mais baratos que os telescópios, inclusive – você pode ir para um lugar escuro, afastado de centros urbanos, e aproveitar muito. Sugiro algo como 8×40, o que significa um aumento de 8x (já dá pra ver bastante coisa) e abertura de 40 mm (quanto maior a abertura, mais luz entra, e fica mais fácil de ver objetos mais fracos). No máximo um 10×50 para começar, mais que isso é muito pesado para aguentar com a mão.

Se você gostar da coisa, aí vale investir em um telescópio bacana. Mas a qualidade óptica é fundamental! Não compre aquelas lunetas baratas que prometem aumentos de centenas de vezes! São dinheiro jogado fora: a imagem fica borrada e você vai ver muito menos que com bons binóculos.

Tenho binóculos, o que faço agora?

Você pode estar se perguntando, dá para observar algo com um binóculo? Pode acreditar, mesmo com um aumento de 10x, já dá para ver muita coisa. Aponte pra Lua e você vai entender o que eu digo. Conseguir ver as crateras é uma experiência e tanto.

Mas você pode querer mais, e tem toda a razão. Tem gente que pensa em olhar estrelas com binóculos ou telescópios, e o resultado em geral é… decepcionante. Afinal, uma estrela é um pontinho brilhante no telescópio também.

No entanto, não se preocupe, há muitos objetos lindos no céu para apreciar. Aglomerados de estrelas, planetas, nebulosas. Muitos destes astros estão ao alcance de binóculos. O problema é encontrar.

(Breve parênteses para uma confissão: sou astrônomo profissional, mas também sou péssimo encontrando objetos no céu. Sei fazer isso matematicamente, mas não me peça para apontar para sua constelação favorita!)

Nesse caso, algo que me ajuda muito são os aplicativos de telefone. Dois que posso recomendar são o Sky Map (grátis – está disponível no Google Play) e o Stellarium (pago – disponível no Google Play e no App Store). São softwares geniais: você pode apontar o telefone para o céu e ele te diz o que está na frente. Ou então você pode fazer uma busca por objetos interessantes, e o aplicativo te leva até lá.

Saia e aproveite!

Agora é só sair e se divertir. Volto a dizer, dá para fazer algo de uma cidade grande, mas a contaminação luminosa impede que vejamos muitas coisas. O mais legal é quando você pode ir para algum lugar bem escuro, no campo ou na praia, e aproveitar uma noite de céus limpos.

Algumas últimas dicas: a Lua é linda, mas você consegue ver melhor as outras coisas sem ela. Afinal, o céu fica bem mais claro, principalmente com Lua cheia.

Aliás, para ver a própria Lua, o melhor é evitar a Lua cheia. Na crescente, por exemplo, a luz do Sol bate de lado, e podemos ver muito melhor as sombras das crateras.

Por último, lembre-se de que você pode aproveitar até mesmo sem binóculos! Em um lugar mais escuro é possível ver a Via Láctea, a própria galáxia que habitamos, como um traço de estrelas leitoso (daí o nome) atravessando os céus.

O importante é curtir. Contemplar o universo e lembrar de como somos pequenos diante de toda essa imensidão. Uma sensação ao mesmo tempo de espanto e inspiração, inesquecível.

 

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Oi, vizinho: temos condições de encontrar vida extraterrestre nesta década? http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/01/17/a-busca-por-vida-extraterrestre-na-decada-de-2020/ http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/2020/01/17/a-busca-por-vida-extraterrestre-na-decada-de-2020/#respond Fri, 17 Jan 2020 07:00:21 +0000 http://espacotempo.blogosfera.uol.com.br/?p=101

Impressão artística do planeta TOI 700 d (Goddard/Nasa)

Nos últimos dias, tivemos vários anúncios de novos planetas descobertos ao redor de outras estrelas. Em um caso, um jovem de 17 anos descobriu um planeta orbitando um sistema binário, como Tattooine de Guerra nas Estrelas.

Mais tarde, astrônomos anunciaram um novo planeta terrestre orbitando Proxima Centauri, a estrela mais próxima do nosso sistema solar, assim como um planeta do tamanho da Terra a 100 anos-luz de distância que poderia conter água em estado líquido.

O que isso tudo significa para a ciência? Bom, por enquanto, nada. São descobertas interessantes, mas que de certa forma reproduzem diversos trabalhos científicos dos últimos cinco anos. Já havíamos descoberto planetas ao redor de estrelas binárias, planetas rochosos com possibilidade de água líquida, etc.

Mas é claro que eu não estaria escrevendo essa coluna se não houvesse algo interessante a ser dito. E o título do texto já dá uma boa dica.

Até 2018, o satélite campeão de exoplanetas era sem sombra de dúvida o Kepler, da Nasa. Foram milhares de novos planetas detectados, e uma revolução no nosso conhecimento sobre a formação de sistemas planetários.

No entanto, algo que poderia ser visto como seu ponto forte acabou sendo uma fraqueza inerente. Sendo muito sensível, o Kepler encontrou planetas principalmente em estrelas distantes, quando estes passavam na frente das suas estrelas hospedeiras e diminuíam levemente seu brilho aparente. Dessa forma, o estudo das propriedades planetárias era particularmente difícil.

Aí entra o TESS, novo satélite de busca por exoplanetas. Embora seja até menos sensível que o Kepler, o TESS consegue observar uma grande região do céu de cada vez. Assim, ao invés de procurar planetas em um pequeno grupo de estrelas distantes, está varrendo de forma eficiente a nossa vizinhança galáctica por novos planetas.

Os frutos dessa estratégia virão principalmente ao longo da próxima década. Com os novos telescópios espaciais (como o James Webb) e terrestres (como o ELT, a ser inaugurado no Chile em 2025), poderemos investigar a composição química da atmosfera desses planetas, analisando como a luz que vemos da estrela se altera quando o planeta passa em frente. Isso seria impossível para estrelas distantes, mas será lugar comum daqui a 10 anos.

A grande esperança dos astrônomos é encontrar nessas atmosferas uma assinatura química da presença de vida — algo como o gás carbônico produzido pela respiração celular. Não necessariamente algo que indique a presença de uma civilização, talvez apenas algumas bactérias. Mas já seria uma enorme reviravolta… Já pensaram, se daqui a 10 anos soubermos da existência de bactérias extraterrestres?!

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